
Viver é difícil. Este bem podia ser o epitáfio de A Via Láctea, de Lina Chamie. Não importa se você tem problemas. A vida prossegue. O despertador vai continuar tocando ensurdecedoramente, o trânsito continuará caótico e as buzinas também (aliás, como não levá-las para o lado pessoal certas vezes?). Seria tão bom convencer o mundo lá fora da urgência do silêncio, da delicadeza das palavras, por vezes, tão selvagens. A cidade existe além de nossos caprichos amorosos. A infinidade de possibilidades faz da metrópole o pesadelo dos indecisos. E sua incomunicabilidade estrutural muitas vezes nos transforma em cegos, surdos e mudos.
A Via Láctea é isso. É o homem pequeno em suas mini-verdades, é a tirania do acaso, é o ocaso de qualquer certeza. E o amor na cidade? Ele é difícil, como disse o Ferreira Gullar aí embaixo, mas pode luzir em qualquer ponto. E no auge da paixão, a cidade é vista do alto, da sacada da prepotência dos que amam. E vista de lá, a metrópole neon já anuncia o labirinto de luzes efêmeras do dia seguinte. O amor na cidade é qualquer coisa de muito sério. O encontro com o outro não é um evento isolado. A cidade se impõe praticamente como uma terceira pessoa na relação. Quanta coisa pode acontecer no trajeto até o seu “objeto de satisfação”. São encontros, desencontros e reencontros.
A vida é grande, decididamente. E eu aqui, tão pequena, com o meu pé quebrado...
Bem, vejam o filme.