Tuesday, July 22, 2008

There will always be a poem







Poeta precoce, roqueiro, influência do movimento beatnick – um típico outsider (e como eu os respeito...). Jim Carroll tem o passado de todo roqueiro fadado a entrar na história. Surpreendentemente, ele permaneceu na sombra para o grande público – a critica musical e literária o adora. Carroll tem uma historia de vida no mínimo intrigante. Deu até em filme. "Diário de um adolescente", com o Leonardo Di Caprio, é baseado nos relatos escritos na época em que era um promissor jogador de basquete viciado em drogas. O poeta coseguiu se reinventar de uma maneira inusitada. De esportisa drogado, ele se transformou em roqueiro sóbrio no fim dos anos 70.


Hoje, Jim Carroll segue recitando suas poesias e fazendo um alerta sobre as drogas.

Musicalmente, Carroll tem um quê de David Bowie - muito melhor na minha opinião, diga-se de passagem. Ele combina um timbre de voz meio fantasmagórico, um visual meio glam com versos cortantes.
Adoro os primeiros versos de It's too late:

"It’s too late to fall in love with Sharon Tate but it’s too soon to ask me for the words I want carved on my tomb…." . Ou então :


"it ain't no contribution/ to rely on the institution/ to validate your chosen art/ and to sanction your boredom/ and let you play out your part..."

jim carroll band - it's too late

Não poderia deixar de falar em People who died que Jim fez para seus amigos que morreram devido ao vício e outros infortúnios. Talvez quem nunca tenha escutado falar de Carroll, reconheça esta música. Segue o vídeo.




Saturday, July 05, 2008

Em agosto

Como já é de conhecimento de todos, João Gilberto tocará em agosto no Teatro Municipal.

Ando contando os dias e já sei de antemão que uma de minhas interpretações prediletas estará no show : Estate.

Será um grande presente de aniversário.

Monday, May 26, 2008

Para relaxar...



Este é o pequeno mimo que me dei: um songbook do Gershwin para piano!




Ma-ra-vi-lho-so.
Tem coisas que só a Amazon.com faz por você.


Sunday, April 27, 2008

Sabedoria einsteiniana


"As teses da matemática não são certas quando relacionadas com a realidade e, enquanto certas, não se relacionam com a realidade."



"A música e a pesquisa em física originam-se de fontes diferentes, mas são intimamente relacionadas e ligadas por um fio comum, que é o desejo de exprimir o desconhecido. As reações divergem, mas os resultados são complementares".


"Talvez algum dia a solidão venha a ser adequadamente reconhecida e apreciada como mestra da personalidade. Há muito que os orientais o sabem. O indivíduo que teve experiência da solidão não se torna vítima fácil da sugestão das massas."


Para quem gosta de lógica, teste do Einstein-



James Joyce
( Borges, 1968)

Em um dia do homem estão os dias
do tempo, desde o inconcebível
dia inicial do tempo, em que um terrível
Deus prefixou os dias e agonias,
até aquele outro em que o umbíquo rio
do tempo terrenal torne a sua fonte,
que é o Eterno, e se apague no presente,
no futuro, no passado o que agora é meu.
Entre a aurora e a noite está a história
universal.Do fundo da noite vejo
a meus pés os caminhos do hebreu,
Cártago aniquilada, Inferno e Glória.
Dá-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia.

Friday, April 11, 2008

Insônia
(Álvaro de Campos)

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo.

Sunday, February 17, 2008

Wednesday, February 06, 2008

Maluco Beleza


Loucos de cima para baixo: eu, Tamara, Julie, Marcelo e Ciça.

Monday, February 04, 2008

O prazer do difícil


O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias.
A alegria
Espontânea se foi.
O fogo esfria
No coração.
Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras.
Diabos levem
As peças de teatro que se escrevem
Com cinqüenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários,
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente,
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.


(The fascination of what’s difficult, W.B. Yeats, tradução: Augusto de Campos)

Monday, January 28, 2008

Badfinger

http://www.youtube.com/watch?v=PyBS_1vGwpU

Vejam só, como se assassina uma música...
Sempre achei Without you uma musiquinha detestável, graças a não menos detestável Mariah Carey. Fuxicando o youtube dia desses, fiquei absolutamente chocada ao descobrir que esta música é do Badfinger, banda setentista apadrinhada por ninguém menos que Sir. Paul McCartney. É uma balada digna que foi cruelmente assassinada pela cantora e seus floreios vocais.

Thursday, January 24, 2008

Do diário de Woody Allen


É cada vez mais difícil atravessar a noite. Ontem, eu tinha a estranha sensação de que vários homens tentavam invadir o meu quarto para me lavar com xampu. Mas por quê? Continuei a imaginar formas criadas pelas sombras, e às três da manhã as cuecas que eu pendurara numa cadeira pareciam o Kaiser de patins. Quando finalmente consegui dormir, tive o mesmo pesadelo apavorante de sempre: aquela marmota tentando tomar o meu prêmio na rifa. Desespero.
*
Acho que minha tuberculose piorou. Minha asma também. O chiado vai e vem, fico tonto toda hora. Começo a engasgar com violência e a desmaiar. Meu quarto é úmido, tenho arrepios e palpitações sem fim. Reparei, também, que estou sem guardanapos de papel. Quando isso terminará?
*
Uma idéia para um conto: um sujeito acorda e descobre que seu papagaio foi nomeado ministro da Agricultura. Fica transtornado de ciúmes e se mata com um tiro na cabeça, mas infelizmente a arma era daquelas que soltam uma bandeirinha escrito BANG! A bandeirinha fura o seu olho e ele sobrevive - um ser humano castigado que, pela primeira vez, goza os prazeres simples da vida, como plantar ou sentar-se sobre um cano.
*
Meditando: Por que o homem mata? Mata por comida. E não só por comida: quase sempre tem uma bebidinha no meio.
*
Devo me casar com W.? Só se ela me contar quais são as outras letras do seu nome. E a carreira dela? Como poderei pedir a uma mulher com aquela beleza para abandonar a luta-livre? Problemas…
*
Para quem ama, a pessoa amada é sempre a coisa mais linda que se possa imaginar, mesmo que para um observador neutro ela possa ser confundida com uma porção de manjubinhas. A beleza está no olhar de quem aprecia. Se quem a aprecia não enxergar bem, deve perguntar ao pessoal quais são as garotas mais bonitas. (Na verdade, as mais bonitas são quase sempre as mais chatas, daí muita gente achar que não existe Deus.)
*
Um dia desses, num funeral, encontrei meu irmão. Não nos víamos há uns quinze anos, mas como sempre ele tirou uma bola de futebol do bolso e começou a me espancar com ela. O tempo me fez entendê-lo melhor. Já vejo que sua observação costumeira de que eu era “um verme asqueroso destinado à exterminação” não era feita com raiva, mas com pena. Sejamos realistas: ele sempre foi muito mais brilhante do que eu - mais esperto, mais informado, mais educado. É um mistério ele trabalhar até hoje na Bob’s.
*
Uma idéia para um conto: uns castores tomam o Carnegie Hall de assalto e encenam Wozzeck. (Um tema forte: qual será a estrutura da peça?)
*
Deus meu, por que sou tão culpado? Será que por odiar meu pai? Talvez tudo tenha começado no incidente do filé à parmegiana. Mas por que ele tinha guardado o filé na carteira? Se eu tivesse dado ouvidos a ele, estaria consertando chapéus até hoje. Posso ouvir sua voz: “Moldar chapéus: isto é tudo na vida”. Lembro-me de sua reação quando lhe disse que queria escrever. “A única coisa que você vai escrever será de parceria com uma coruja.” Até hoje não sei o que ele quis dizer com isso. Que homem triste! Quando minha primeira peça - Um Quisto para o Gus - foi encenada no Lyceo, ele apareceu na estréia usando fraque e máscara contra gases.
*
Hoje vi um pôr-do-sol vermelho e amarelo, e pensei para mim mesmo: “Como sou insignificante!”. É bem verdade que ontem eu também pensei a mesma coisa e estava chovendo. Me deixei possuir pelo nojo de mim mesmo e examinei mais uma vez a hipótese de suicídio - desta vez respirei fundo junto a um vendedor de seguros.
*
Uma história curta: um homem acorda de manhã e percebe que se tranformou no seu próprio lombo. (Esta idéia funciona em muitos níveis. Psicologicamente, é a síntese do pensamento de Kruger, o discípulo de Freud que descobriu a sexualidade do toucinho.)
*
Como Emily Dickinson estava errada! A esperança não é “uma coisa emplumada”. Esta coisa com plumas era o meu sobrinho; preciso levá-lo a um especialista na Suíça.
*
Resolvi romper meu noivado com com W. Ela não entende o que eu escrevo, e ontem a noite disse que a minha Crítica da Realidade Metafísica lembrava muito o filme Aeroporto. Discutimos, e ela veio com aquela conversa de filhos novamente, mas eu a convenci de que eles seriam todos muito jovens.
*
Será que acredito em Deus? Acreditava até o acidente de minha mãe. Ela caiu em cima de um bolo de carne, e ele penetrou seu baço. Ficou meses em coma, incapaz de fazer alguma coisa a não ser cantar Granada para um arenque imaginário. Por que esta mulher sofreu tanto no melhor de sua vida - por ter desafiado as convenções quando jovem, casando-se com um saco de papel na cabeça? E como posso acreditar em Deus, se na semana passada minha língua ficou presa no rolo da máquina de escrever elétrica? Estou atormentado pela dúvida. E se tudo for uma ilusão e nada existir? Neste caso, esse tapete foi caro demais. Se pelo menos Deus pudesse me dar um sinal! Como, por exemplo, um bom depósito em meu nome num banco suíço.
*
Hoje tomei café com Melnick. Ele conversou sobre sua idéia de vestir todos os funcionários públicos de galinha.
*
Idéia para peça: um personagem baseado no meu pai, mas com o dedão do pé um pouco menor. Ele vai para Sorbonne estudar gaita. No final, morre, mas sem ter realizado seu único sonho - afundar até a cintura no molho da carne assada. (Tenho um fecho brilhante para o segundo ato, com dois anões encontrando uma cabeça decepada num carregamento de bolas de vôlei.)
*
Tive pensamentos mórbidos no meu passeio do meio-dia. O que existe na morte que me incomoda tanto? Talvez o horário. Melnick diz que a alma é imortal e continua vivendo depois que o corpo se mandou, mas se minha alma viver sem meu corpo, estou certo que minhas roupas ficarão folgadas, mais isso…
*
Nem precisei romper com W., afinal, porque a sorte fez com que ela fugisse para a Finlândia com a mulher barbada do circo. Terminou tudo bem, imagino, apesar de eu ter tido outro daqueles ataques em que a tosse sai pelas orelhas.
*
Esta noite, queimei todas minhas peças e poesias. Ironicamente, enquanto eu queimava minha obra prima, Pingüim Negro, o quarto pegou fogo e agora estou sendo processado por uns sujeitos chamados Pinchunk e Schlosser. Kierkegaard tinha razão.
*
Atenção: Woody Allen não existe. Esse nome apenas designa uma pequena multidão de seres interplanetários (79, dizem) que um dia chegaram à Terra numa astronave em forma de salmão e com uma missão: espalhar um pouco de humor num planeta onde essa arte estava ameaçada de extinção.
Fonte: Revista Realidade #114, Abril de 1975.

Tuesday, January 22, 2008

Wednesday, December 12, 2007

A Via Láctea





Viver é difícil. Este bem podia ser o epitáfio de A Via Láctea, de Lina Chamie. Não importa se você tem problemas. A vida prossegue. O despertador vai continuar tocando ensurdecedoramente, o trânsito continuará caótico e as buzinas também (aliás, como não levá-las para o lado pessoal certas vezes?). Seria tão bom convencer o mundo lá fora da urgência do silêncio, da delicadeza das palavras, por vezes, tão selvagens. A cidade existe além de nossos caprichos amorosos. A infinidade de possibilidades faz da metrópole o pesadelo dos indecisos. E sua incomunicabilidade estrutural muitas vezes nos transforma em cegos, surdos e mudos.


A Via Láctea é isso. É o homem pequeno em suas mini-verdades, é a tirania do acaso, é o ocaso de qualquer certeza. E o amor na cidade? Ele é difícil, como disse o Ferreira Gullar aí embaixo, mas pode luzir em qualquer ponto. E no auge da paixão, a cidade é vista do alto, da sacada da prepotência dos que amam. E vista de lá, a metrópole neon já anuncia o labirinto de luzes efêmeras do dia seguinte. O amor na cidade é qualquer coisa de muito sério. O encontro com o outro não é um evento isolado. A cidade se impõe praticamente como uma terceira pessoa na relação. Quanta coisa pode acontecer no trajeto até o seu “objeto de satisfação”. São encontros, desencontros e reencontros.
A vida é grande, decididamente. E eu aqui, tão pequena, com o meu pé quebrado...

Bem, vejam o filme.

Sunday, December 09, 2007

Um pouco mais de calma...

Muita gente diz que falo rápido. É porque penso muito rápido. Às vezes, me atropelo de pensamentos. Acho que isso acaba por se manifestar também na minha maneira de tocar piano. Gosto de músicas que pedem velocidade. Um mérito e um problema, dependendo do estilo de música. Talvez, por isso, goste tanto do jazz. É sair improvisando e dedilhando, sem ter que pensar muito. Quando comecei a tocar, treinava a velocidade desconsiderando o andamento das músicas. Meu pai me avisava que o piano não ia sair correndo. Simplesmente, atropelava tudo, tentando tocar o mais rápido possível. Pegava The entertainer, do Scott Joplin, e a executava duas vezes mais veloz que de costume. Blue Waltz do Coltrane é uma ótima música para treinar também. O pianista, MCcoy Tyner é simplesmente maravilhoso. Fico só babando e tentando humildemente chegar lá a cada execução. Apesar desta minha tendência de apressar as coisas, tocar Everytime we say goodbye, do Cole Porter, é uma grande lição de sutileza. Cada acorde é envolvente e toma seu tempo. Não achei nenhuma execução dela no piano (solo) e também não tenho nenhum áudio meu tocando-a, mas este vídeo do Coltrane com seu quarteto é lindo. Lá pelas tantas, o McCoy começa a improvisar...mas a melodia principal da música é de um jazz delicado que pede calma, muita calma...



On another note, a minha pressa também causa acidentes. Eu consegui a proeza de torcer o pé descendo do ônibus!! Resultado: pé imobilizado e 14 dias de licença no trabalho, pois a lei está do meu lado...chato, né?!

Monday, December 03, 2007

Amo esta música. Mas também o que eu não amo dos Beatles?

Adoro Billy Preston no piano...

Thursday, November 22, 2007

A Cidade




A vida bate

(Ferreira Gullar)



Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida
- a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida, o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão a Nova York, a Santiago
do Chile. Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.
Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham.
Alguns te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome de vida!
O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro
sangue urbano movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes e ruínas .
És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.
Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar que me sustenta
esta tarde
debruçado à janela de meu quarto em Ipanema
na América Latina.

Thursday, November 15, 2007

O guarda-chuva e o individualismo

Dias de chuva sempre conduzem a boas reflexões. Aquele tipo de discussão, de que depende toda a sua vida, surge nesses dias. O guarda-chuva sempre foi um objeto incômodo para mim. Incômodo por denunciar demais. Eu o elegeria como o símbolo máximo do individualismo na sociedade. Quer algo mais individualista que um guarda-chuva? É anatomicamente feito para uma pessoa só. Não conheço ninguém que se sinta bem, dividindo um guarda-chuva, independente do tamanho deste. Não dá! A pessoa sempre reclama que está pingando nela. Então, você tem que se contorcer para dar para os dois. Por mais que você aceite a suposta solidariedade daquele que se propõe a dividi-lo com você, fica sempre aquela sensação de que “tem gente demais aqui!”. E há também o perigo potencial do dito cujo. Já perdi a conta de quantas pessoas quase ceguei andando com aquilo.

Acho que se pode dizer muito sobre quem consegue manejar bem um guarda-chuva. Para começar, essa pessoa é muito equilibrada física e emocionalmente. No mínimo. Nada de comportamentos demasiadamente passionais. Saber a hora certa de dar aquela sutil “viradinha”, para não esbarrar com o outro que vem em sua direção, é uma arte! Sem contar que é também um desejo subconsciente de não se misturar e evitar dirigir-se ao infeliz para pedir desculpas. É o tal do “comportamento de reserva” do Georg Simmel. Aquele mesmo que faz com que, às vezes, se torne tão difícil se dirigir ao padeiro às 7 da manhã ou segurar o elevador quando você tem a opção de um trajeto livre do silêncio constrangedor. Então passamos rapidamente uns pelos outros, fazendo um enorme esforço para não sairmos de nosso taxímetro mental. Não importa se você está parado no ponto de ônibus e há alguém secretamente desejando que você ofereça uma cobertura. Quem mandou esquecer o guarda-chuva em casa, hein? Não vivemos mais no tempo em que dividir um guarda-chuva era exatamente isso: dividir um guarda-chuva! Somos de um tempo que teme sociopatas, psicóticos, ladrões, muitas vezes vítimas e frutos do mesmo individualismo de aqui falo.

Cultivamos um olhar cada vez mais blasé em relação ao outro. Às vezes, um simples artefato do cotidiano e como fazemos uso dele pode denunciar a distância emocional em que nos encontramos. Talvez um dia passem a fabricar“guarda-chuvas solidários”. Até lá, vamos pegando chuva mesmo ou usando casaco com capuz, só para garantir. Ah e é claro que é muita falta do que fazer minha escrever um texto falando sobre o que eu acho do guarda-chuva. Mas é o que eu disse. Dias de chuva. Falta do que fazer, oficina da bobagem...E como disse o Cazuza, "o que salva a gente é a futilidade".

Sunday, October 28, 2007





"Ele não olha nada;
ele retém para dentro
seu amor e seu medo:
é isto o Olhar."











(Roland Barthes, A câmara clara, 1980)
Foto: A. Kertész: O cãozinho, 1928


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Thursday, October 25, 2007

Woody rules

Todo mundo conhece Woody Allen, o cineasta e ator de suas próprias neuroses. Nem todos tiveram a oportunidade de conhecer o Woody Allen escritor dos mais hilários contos. Recomendo, para um bom início, o maravilhoso Cuca fundida. Já li e reli inúmeras vezes como uma perfeita e fiel neurótica.
Hoje de manhã, me deparei com esta pérola do Woody que nunca havia lido, na revista Piauí. Bom demais!
Com vocês,
"Assim comia Zaratustra"....


http://www.revistapiaui.com.br/2007/fev/culinaria.htm

Wednesday, October 24, 2007